terça-feira, 16 de novembro de 2010

Nordestinidade em foco

É nesse solo árido e fértil, em que este povo arredio pisa com tamanha devoção que se semeam as incríveis obras da natureza. Num lugar onde a mata cinza se espalha, onde as forças da natureza digladiam-se, que nascem indivíduos de enorme força e senso de realidade. Num lugar onde a chuva parece trazer a vida e recontar uma história há muito encenada, pais e filhos reproduzem uma realidade de trabalho, sol, cansaço e gratidão. Uma história de sujeitos que constituem e constituem-se como agentes. Agentes não determinados pelo meios, pois não somos "nordestinados", e sim como um povo que assimila e ostenta com enorme orgulho a identidade de nordestino, de trabalhador, e, congratulando Euclides da Cunha, cito uma de suas mais célebres frases: "O nordestino é, antes de tudo, um forte". Ainda o parabenizo pelo trecho em que descreve a fisionomia dos nordestinos em Os Sertões:
"É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias."